sábado, 5 de setembro de 2026

59- O RENASCIMENTO DA DEMOCRACIA

 Estão começando as campanhas políticas. E lembrei das duas primeiras campanhas que fiz, muitos anos atrás, numa época em que não existia computador, internet, celular e toda tecnologia que temos hoje. Mídia era TV aberta, rádio e impressos. E ainda usávamos a velha máquina de escrever (já viu uma? geração Z nem deve saber o que é isso.). Estávamos em plena ditadura, então não havia eleição, muito menos a profissão de marketeiro. Profissionais de propaganda trabalhavam como voluntários, para lutar pela volta da democracia. Hoje dá para ver com clareza a importância dessas primeiras campanhas.


1982, FRANCO MONTORO GOVERNADOR E A DERUBADA DA LEI FALCÃO.


Primeira eleição para o executivo no país. Franco Montoro era o candidato do MDB, oposição à ditadura. Jorge Cunha Lima, intelectual paulista, que era responsável pela comunicação da campanha, me chama para conversar. Eu era redator da Salles, era amigo do Jorge. Diz que o comitê da campanha está com várias agências de propaganda voluntárias, tudo muito confuso, gostaria de ter mais controle sobre a mídia TV e me convida para cuidar dessa área. Fora dali, no meu apartamento, em segredo, contato só com ele. Aceitei e ele me disse que eu teria mais duas outras pessoas para trabalhar comigo: Paulo de Tarso Santos, também redator, e Bouquet, representando a produção de vídeo.


Como era a primeira eleição importante, tinha uma regra rígida para a TV -a chamada Lei Falcão. Ela dizia que só podíamos mostrar a foto 3X4 do candidato e currículo. Depois de muita discussão com os dois parceiros em meu apartamento, resolvemos fazer uma nova leitura da Lei. Ela falava em foto 3X4 do candidato e currículo, mas não definia currículo de quem. Criamos um primeiro filme onde o texto, com a voz do Montoro, contava o currículo do partido, o MDB, e a imagem mostrava as fotos 3X4 de todos os candidatos- governador, senadores e deputados. Virou um forte discurso político.

Falamos que não sabíamos as consequências jurídicas disso, mas com certeza chamaria muita atenção para a campanha -capa de todos os jornais. Fora o impacto político na eleição. Dia seguinte os outros candidatos reclamariam. Com certeza ia ser retirado do ar, era uma bomba para um dia só. Jorge topou. Pelo que soube, foi o Mauro Motoryn, representando as agências que apresentou para o Montoro. Os advogados da campanha foram contra, mas Montoro assumiu.


Foi para o ar, fez barulho- os outros candidatos, em vez de reclamar, fizeram a mesma coisa. E a Lei Falcão caiu assim, de um dia para o outro. Vitória da democracia, vitória de Franco Montoro, Governador de São Paulo.


1993, PEBLISCITO ESCOLHE PRESIDENCIALISMO.


Brasileiros foram convocados para escolher nosso novo formato de governo. Tinham que votar em Forma de Governo (República ou Monarquia) e Sistema de Governo (Presidencialismo ou Parlamentarismo). Eu era Diretor de Criação da Denison Propaganda e meu sócio era Sergio Amado, Presidente. Eu cuidava do conteúdo, planejamento, criação, Sergio cuidava muito bem do lado business, clientes e novos negócios. Baiano, ele era amigo do Jaques Wagner. Um dia Jaques nos visitou trazendo a tiracolo Luis Inácio Lula da Silva, que mais tarde seria candidato a Presidente. Foi a única vez que conversei com Lula. Era a mesma estória, o comitê de campanha tinha várias agências de propaganda voluntárias e eles queriam que a criação da campanha de TV do presidencialismo estivesse fora da confusão. Sergio me perguntou se eu topava fazer. Lula, que eu conhecia como um líder sindical, me convenceu.


Jaques se mudou para a agência, sentou na ponta da minha mesa o mês inteiro. Enquanto eu trabalhava para meus clientes, ele pegava no meu pé para pensar no presidencialismo. Criei uma estratégia com 3 passos -o primeiro era alguma coisa como "lutamos quase 30 anos para poder votar para presidente e agora você vai deixar que outros escolham por você?” Não me lembro mais dos outros dois passos. O primeiro argumento pegou tão bem que ficamos nele até o fim. Eu criei os filmes comerciais, os títulos, os temas, e passava os conceitos e frases para a produtora do Chico Santa Rita que produzia os filmes e seus redatores desenvolviam o programa diário. Foi uma bela parceria.


República ganhou de Monarquia com 70% dos votos. Presidencialismo venceu o Parlamentarismo com 70% dos votos. Antes da campanha, Parlamentarismo vencia nas pesquisas de opinião. A democracia venceu outra vez.

58- HOMENAGEM A EDGAR MORIN

Minha estória com Edgar Morin aconteceu em 1968. Ano da batalha entre a USP e o Mackenzie na rua Maria Antonia -CCC do Mackenzie versus esquerda da USP. Quem viveu nessa época se lembra bem disso, foi uma marca importante do movimento estudantil em plena ditadura.

Pois bem, eu era presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Comunicação da FAAP. Queria trazer o Morin para falar na escola. Falamos por telefone (nessa época não existia internet, celular, essas coisas modernas) com um assistente do Morin, em Paris, convidando para uma palestra na faculdade. Não tínhamos dinheiro para passagem, hospedagem, essas coisas. Só a vontade mesmo de ouvir ele falar. Logo depois nos responderam que sim, ele fazia questão de conversar com a gente. Que tinha uma viagem já agendada para o Brasil em outubro e estava às ordens. Depois que conheci, vi que ele era assim, adorava estar com os estudantes.

Avisamos a diretoria da faculdade do evento, eles concordaram em ceder o auditório. E no dia e hora combinados, lá estava Edgar Morin com toda sua simpatia. Mas a escola estava fechada. Apesar de dizer que concordavam, foram todos embora e trancaram as portas. 

Sentamos na grande escadaria da FAAP e ficamos pensando no que fazer. Nós, Morin e uns duzentos estudantes e intelectuais que vieram ouvir o grande homem ao vivo. Pedi para um colega dar um pulo na USP ocupada pelos estudantes e ver se poderíamos usar algum auditório deles na Maria Antonia. Sim, podíamos usar o auditório da Faculdade de Economia. Lá fomos nós.

Falei lá em cima da batalha entre USP e Mackenzie porque logo depois os estudantes ocuparam a USP e a rua Maria Antonia. Fizeram barricadas na rua, para se defender do CCC e da polícia. Chegamos ali e tivemos que passar por cima desses obstáculos, para entrar na faculdade. 

Morin, então com uns 53 anos, se divertiu com a aventura. Intelectuais mais velhos também, parecia que estavam participando mesmo de uma revolução. Entramos no auditório junto com vários estudantes que estavam nas barricadas, que acabaram ganhando uma bela palestra.

Claro que foi um sucesso. 

Depois da apresentação fiquei conversando com Morin com meu francês macarrônico e ele me pediu para surpreendê-lo: Me leva amanhã num evento cultural que você ache importante.

Levei Morin e Johanne Harrelle, sua esposa por 15 anos, para ver Roda Viva, do Chico, no teatro Ruth Escobar. Ficaram encantados com a apresentação, peça/musical que marcou época. Era mesmo fantástica, ainda mais naquela época.

Johanne era uma mulher negra canadense, alta e magra, bonita e elegante. Era atriz, modelo, escritora e tinha trabalhado com indústria da moda no Canadá. Logo que acabou a peça, falei que esperaria eles lá fora -precisava distribuir na saída uns panfletos da União Estadual dos Estudantes, convocando para uma manifestação. 

Johanne veio comigo, mesmo sabendo que corríamos risco pegou metade dos panfletos e me ajudou a distribuir. Morin morreu de rir vendo a dupla agitando junto com os estudantes.

Tive muito poucos contatos com Edgar Morin depois dessa aventura que ele adorou. Naquela época a gente só se falava por cartas ou telefone. Ele sempre lembrava daquele dia. Mas hoje posso dizer que estivemos juntos nas barricadas, lutando pela democracia.

Viva o Morin.