sábado, 5 de setembro de 2026

58- HOMENAGEM A EDGAR MORIN

Minha estória com Edgar Morin aconteceu em 1968. Ano da batalha entre a USP e o Mackenzie na rua Maria Antonia -CCC do Mackenzie versus esquerda da USP. Quem viveu nessa época se lembra bem disso, foi uma marca importante do movimento estudantil em plena ditadura.

Pois bem, eu era presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Comunicação da FAAP. Queria trazer o Morin para falar na escola. Falamos por telefone (nessa época não existia internet, celular, essas coisas modernas) com um assistente do Morin, em Paris, convidando para uma palestra na faculdade. Não tínhamos dinheiro para passagem, hospedagem, essas coisas. Só a vontade mesmo de ouvir ele falar. Logo depois nos responderam que sim, ele fazia questão de conversar com a gente. Que tinha uma viagem já agendada para o Brasil em outubro e estava às ordens. Depois que conheci, vi que ele era assim, adorava estar com os estudantes.

Avisamos a diretoria da faculdade do evento, eles concordaram em ceder o auditório. E no dia e hora combinados, lá estava Edgar Morin com toda sua simpatia. Mas a escola estava fechada. Apesar de dizer que concordavam, foram todos embora e trancaram as portas. 

Sentamos na grande escadaria da FAAP e ficamos pensando no que fazer. Nós, Morin e uns duzentos estudantes e intelectuais que vieram ouvir o grande homem ao vivo. Pedi para um colega dar um pulo na USP ocupada pelos estudantes e ver se poderíamos usar algum auditório deles na Maria Antonia. Sim, podíamos usar o auditório da Faculdade de Economia. Lá fomos nós.

Falei lá em cima da batalha entre USP e Mackenzie porque logo depois os estudantes ocuparam a USP e a rua Maria Antonia. Fizeram barricadas na rua, para se defender do CCC e da polícia. Chegamos ali e tivemos que passar por cima desses obstáculos, para entrar na faculdade. 

Morin, então com uns 53 anos, se divertiu com a aventura. Intelectuais mais velhos também, parecia que estavam participando mesmo de uma revolução. Entramos no auditório junto com vários estudantes que estavam nas barricadas, que acabaram ganhando uma bela palestra.

Claro que foi um sucesso. 

Depois da apresentação fiquei conversando com Morin com meu francês macarrônico e ele me pediu para surpreendê-lo: Me leva amanhã num evento cultural que você ache importante.

Levei Morin e Johanne Harrelle, sua esposa por 15 anos, para ver Roda Viva, do Chico, no teatro Ruth Escobar. Ficaram encantados com a apresentação, peça/musical que marcou época. Era mesmo fantástica, ainda mais naquela época.

Johanne era uma mulher negra canadense, alta e magra, bonita e elegante. Era atriz, modelo, escritora e tinha trabalhado com indústria da moda no Canadá. Logo que acabou a peça, falei que esperaria eles lá fora -precisava distribuir na saída uns panfletos da União Estadual dos Estudantes, convocando para uma manifestação. 

Johanne veio comigo, mesmo sabendo que corríamos risco pegou metade dos panfletos e me ajudou a distribuir. Morin morreu de rir vendo a dupla agitando junto com os estudantes.

Tive muito poucos contatos com Edgar Morin depois dessa aventura que ele adorou. Naquela época a gente só se falava por cartas ou telefone. Ele sempre lembrava daquele dia. Mas hoje posso dizer que estivemos juntos nas barricadas, lutando pela democracia.

Viva o Morin.


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